UMA NOVA FASE PARA A GIVENCHY
Sarah Burton continua a construir sua Givenchy a partir de uma ideia precisa: a roupa precisa acompanhar a mulher, e não o contrário. Nesta sexta-feira, 2 de outubro, em Paris, a diretora criativa apresentou a coleção Spring/Summer 2027 e aprofundou uma linguagem que já vinha tomando forma desde sua chegada à maison. Agora, porém, a proposta ganha maior definição. A alfaiataria permanece central, mas divide espaço com volumes mais fluidos, sensualidade controlada e peças que exploram a relação entre estrutura e movimento.
Burton assumiu a direção criativa da Givenchy em setembro de 2024, depois de construir uma trajetória de mais de duas décadas na Alexander McQueen. Desde então, sua estratégia não buscou uma ruptura imediata. Pelo contrário, a designer trabalhou primeiro sobre corte, proporção e silhueta.
Esse processo importa. Afinal, uma maison como a Givenchy possui códigos construídos ao longo de décadas. Hubert de Givenchy estabeleceu uma ideia de elegância baseada em precisão, simplicidade e sofisticação. Portanto, Burton não precisa reproduzir suas formas literalmente. Ela pode reinterpretar seus princípios.
A coleção de hoje avança justamente nessa direção. A roupa ganha personalidade por meio do corte, enquanto o styling acrescenta tensão, contraste e movimento. Dessa maneira, a Givenchy de Burton começa a deixar de parecer uma transição e passa a apresentar uma assinatura mais reconhecível.


A ALFAIATARIA CONTINUA COMO PONTO DE PARTIDA
A alfaiataria ocupa posição fundamental no vocabulário de Burton. Entretanto, a designer não a trata como uma categoria rígida.
O blazer aparece com construção precisa, mas ganha novas proporções. As linhas do corpo recebem alterações sutis. Além disso, volumes mais soltos criam contraste com partes estruturadas do look.
Essa tensão entre controle e liberdade também apareceu nas coleções anteriores de Burton. Na temporada Fall/Winter 2026, por exemplo, a designer relaxou a silhueta ampulheta que havia estabelecido como um dos primeiros códigos de sua Givenchy e ampliou sua pesquisa de tailoring.
Agora, essa evolução ganha continuidade. A alfaiataria deixa de funcionar apenas como símbolo de autoridade. Ela passa a funcionar como ferramenta de expressão.


O CORPO ENTRE ESTRUTURA E MOVIMENTO
A sensualidade da coleção também merece atenção. Burton evita construir uma feminilidade baseada apenas na exposição do corpo. Em vez disso, trabalha com aberturas, drapeados e mudanças de proporção.
Consequentemente, o corpo aparece e desaparece ao longo da coleção. Uma peça revela uma área enquanto outra cria cobertura. Uma construção rígida encontra um tecido mais maleável. Um look mais contido recebe um detalhe inesperado.
Esse mecanismo cria ritmo. Além disso, aproxima a coleção da ideia de individualidade que Burton vem desenvolvendo na Givenchy.
Na temporada anterior, a designer afirmou que cada mulher poderia representar uma personalidade diferente e que cada silhueta deveria possuir seu próprio caráter. Essa lógica continua importante para entender a coleção atual.


A IMPORTÂNCIA DO ATELIER
Existe ainda uma dimensão menos evidente, mas essencial: o papel do atelier.
Burton constrói sua linguagem a partir da proximidade com a execução. Isso aparece especialmente no modo como a designer trata corte, encaixe e construção.
Além disso, sua experiência na Alexander McQueen ajuda a explicar essa preocupação. Durante anos, Burton trabalhou diretamente com técnicas de alta complexidade, construção escultural e desenvolvimento de peças dentro do atelier.
Na Givenchy, ela desloca essa experiência para uma proposta menos teatral. O resultado, portanto, não depende necessariamente de uma peça monumental. Muitas vezes, a sofisticação surge justamente da precisão de uma manga, da queda de um tecido ou da maneira como uma peça acompanha o corpo.


UMA ELEGÂNCIA MENOS PREVISÍVEL
Outro aspecto relevante está no equilíbrio entre tradição e espontaneidade.
Burton conhece a importância da Givenchy como uma casa de elegância francesa. Entretanto, sua proposta não transforma essa elegância em formalidade permanente.
Pelo contrário, a coleção trabalha com diferentes estados de vestir. Alfaiataria pode conviver com elementos mais descontraídos. Peças sofisticadas podem ganhar uma construção aparentemente simples. Além disso, proporções contrastantes impedem que looks assumam uma uniformidade excessiva.
Assim, Burton amplia o conceito de elegância da maison. Ela não precisa significar rigidez. Também não precisa significar minimalismo. Pode envolver sensualidade, movimento, imperfeição calculada e até certa espontaneidade.


UMA GIVENCHY CONSTRUÍDA DE DENTRO PARA FORA
A coleção Spring/Summer 2027 não precisa anunciar uma nova Givenchy em voz alta. Ela demonstra essa transformação pela construção.
Sarah Burton trabalha com aquilo que conhece: corpo, corte, proporção, tecido e acabamento. Entretanto, coloca esses elementos em diálogo com a história de uma maison fundada por Hubert de Givenchy em 1952.
Por isso, o resultado mais interessante não está em uma única peça ou em uma referência isolada. Está na coerência do conjunto.
A Givenchy de Burton começa a encontrar seu próprio equilíbrio. De um lado, existe a disciplina da alfaiataria. Do outro, existe a liberdade do movimento. Entre os dois, aparece uma mulher que não precisa escolher entre precisão e espontaneidade.
E, justamente por isso, a coleção Primavera/Verão 2027 representa mais um passo na construção de uma Givenchy que olha para seu patrimônio sem permanecer presa a ele.



