UMA ARENA PARA APROXIMAR MODA E ESPECTADOR
Em sua terceira coleção à frente da Loewe, Jack McCollough e Lazaro Hernandez avançam sobre uma questão essencial: como preservar a força artesanal de uma casa histórica enquanto aproximam suas criações da vida contemporânea. Nesta sexta-feira, 2 de outubro, em Paris, a dupla apresentou a coleção Primavera/Verão 2027 e consolidou uma linguagem que combina cor saturada, domínio do couro, construção precisa e uma nova dose de pragmatismo. Assim, a proposta mantém o caráter artístico que marcou o início da gestão, mas transforma sua exuberância em um guarda-roupa mais habitável.
A apresentação aconteceu nos arredores do Château de Vincennes, dentro de uma estrutura circular de dois níveis criada especialmente para o desfile. O projeto veio do escritório Casper Mueller Kneer e aproximou a experiência de uma arena, de um teatro e de uma galeria.
Além disso, a arquitetura estabeleceu uma relação mais próxima entre público e passarela. Em vez de criar uma distância monumental, o espaço colocou os convidados ao redor de um centro circular. Dessa maneira, a própria cenografia reforçou uma das ideias que atravessam a coleção: a moda como experiência presencial, física e compartilhada.


O NOVO CAPÍTULO DE JACK MCCOLLOUGH E LAZARO HERNANDEZ
McCollough e Hernandez assumiram a direção criativa da Loewe em 2025, depois da saída de Jonathan Anderson, que comandou a casa por 11 anos e posteriormente assumiu a direção criativa da Dior. Desde então, a dupla vem construindo uma identidade própria a partir de dois elementos recorrentes: artesanato e cor.
Agora, porém, a linguagem amadurece. Em vez de depender apenas do impacto visual, a coleção transforma esses códigos em peças mais fáceis de incorporar ao cotidiano. Portanto, a terceira passagem da dupla pela passarela ganha importância justamente por mostrar como sua visão pode funcionar além do gesto conceitual.


O COURO MUDA DE COMPORTAMENTO
Como seria esperado de uma casa cuja história se encontra profundamente ligada à marroquinaria, o couro ocupa posição central. Contudo, McCollough e Hernandez evitam tratá-lo apenas como símbolo de estrutura e rigidez.
As jaquetas aparecem drapeadas e acompanham o corpo com maior fluidez. Além disso, saias de cintura alta recebem aberturas estratégicas, enquanto vestidos de construção babydoll introduzem uma proporção mais leve. Assim, o couro deixa de funcionar apenas como superfície e passa a participar ativamente da construção da silhueta.
Nos acessórios, a tradição da marroquinaria ganha novas formas. Bolsas e objetos aparecem como pontos de concentração visual, reforçando a importância histórica do savoir-faire da LOEWE dentro da coleção.


COR COMO ESTRUTURA, NÃO COMO EXCESSO
A cor continua fundamental. Entretanto, a paleta desta temporada amplia o vocabulário estabelecido nas primeiras coleções da dupla.
Os tons intensos permanecem, mas dividem espaço com verde, cáqui e neutros. Dessa forma, o impacto cromático encontra uma base mais cotidiana. O resultado evita transformar a cor em mero espetáculo e utiliza sua presença para organizar os próprios looks.
Além disso, os estampados assumem maior protagonismo. Flores bordadas aparecem em shorts e minivestidos, enquanto quadriculados e listras entram em peças de alfaiataria e camisas. Portanto, a coleção trabalha o ornamento de maneira mais integrada à roupa.


A EXPERIMENTAÇÃO ENCONTRA O COTIDIANO
Esse talvez seja o movimento mais relevante da coleção. A dupla não abandona a pesquisa de construção, mas reduz a distância entre experimentação e uso.
Silhuetas relaxadas convivem com camisas, calças retas e tricôs. Peças técnicas, como corta-ventos, aparecem ao lado de vestidos de malha com golas de efeito iridescente e saias de mesh adornadas. Consequentemente, o guarda-roupa ganha variedade sem depender de uma única ideia visual.
O layering também ganha importância. Camadas, acessórios e proporções diferentes permitem que peças relativamente simples adquiram novas leituras. Assim, a coleção apresenta uma noção de luxo menos dependente da complexidade aparente e mais ligada à construção do conjunto.


UMA LOEWE MAIS CONCRETA
Depois de três coleções, Jack McCollough e Lazaro Hernandez começam a transformar experimentação em linguagem própria. A novidade desta temporada não está simplesmente em uma nova paleta ou em uma silhueta específica. Está, sobretudo, na capacidade de equilibrar códigos aparentemente opostos.
De um lado, existe a exuberância cromática, o couro trabalhado e a pesquisa de formas. Do outro, aparecem peças retas, sobreposições possíveis e uma construção mais próxima da rotina.
Assim, a Loewe apresentada hoje em Paris preserva sua vocação para o artesanato e para a criação de objetos de desejo, mas aproxima esses valores de uma realidade mais cotidiana. E é justamente nessa aproximação que a nova direção criativa encontra uma das suas afirmações mais claras: não é preciso escolher entre invenção e usabilidade quando ambas podem nascer do mesmo savoir-faire.



