UMA NOVA FASE PARA A BALENCIAGA
A Balenciaga apresentou nesta quinta-feira, 1º de outubro, sua coleção Primavera/Verão 2027 durante a Paris Fashion Week. No comando criativo, Pierpaolo Piccioli aprofundou uma direção que começou a construir desde sua chegada à maison. Agora, porém, o discurso ganha maior clareza.
Em vez de romper com o passado, Piccioli procura compreender o que ainda pode funcionar no presente. Assim, a coleção aproxima a linguagem da alta-costura de peças essencialmente cotidianas. Jeans, camisetas, camisas, jaquetas de couro e bombers ganham, portanto, tratamento de ateliê.
A proposta também responde a uma questão central para a Balenciaga atual: como preservar a força conceitual da maison enquanto amplia a relevância de seu guarda-roupa feminino. Desde a saída de Demna para a Gucci, Piccioli assumiu a tarefa de conduzir a marca por uma nova etapa. Consequentemente, sua Balenciaga começa a adquirir uma identidade própria, sem apagar as referências que a antecederam.


CRISTÓBAL BALENCIAGA COMO PONTO DE PARTIDA
O legado de Cristóbal Balenciaga permanece presente, mas Piccioli evita transformar o arquivo em uma reprodução literal.
As referências aparecem sobretudo na construção das formas. Cinturas marcadas, volumes controlados e determinadas proporções remetem à tradição da maison. Entretanto, esses códigos chegam a peças contemporâneas, como camisetas e jaquetas de couro.
Essa estratégia importa porque preserva uma característica essencial do trabalho de Cristóbal: a roupa como objeto construído.
Assim, a referência histórica não funciona apenas como decoração. Ela orienta a arquitetura das peças.
Piccioli já havia demonstrado interesse por esse princípio em sua primeira coleção para a Balenciaga. Naquele momento, ele investigou a relação entre corpo, tecido e volume. Agora, entretanto, leva essa pesquisa para uma dimensão mais cotidiana.


LEVEZA COMO LINGUAGEM
A coleção também representa uma mudança evidente de atmosfera.
Piccioli enfatizou conceitos como leveza, suavidade, movimento e conforto. Por isso, a silhueta abandona parte da rigidez associada a determinadas fases recentes da Balenciaga e encontra uma relação mais fluida com o corpo.
As jaquetas aparecem estruturadas, mas frequentemente apresentam cintura marcada. Em contraste, calças amplas criam proporções mais soltas. Jeans rasgados convivem com peças de alfaiataria, enquanto vestidos longos introduzem uma dimensão mais delicada.
Além disso, a paleta cromática assume papel importante. Rosa intenso, azul-cobalto, Laranja, verde e tons suaves de rosa aparecem ao lado do branco. Dessa maneira, a cor não funciona apenas como acabamento. Ela reorganiza a leitura da silhueta.
O resultado estabelece um contraste interessante: enquanto a construção continua rigorosa, a aparência se torna mais espontânea.


DO COURO AO ORGANZA
Os materiais reforçam essa dualidade.
O couro surge em jaquetas e peças estruturadas, porém ganha uma aparência mais maleável. Já o organza assume função ornamental e construtiva. Flores tridimensionais aparecem em algumas peças, criando volumes que acompanham o movimento dos vestidos.
Um dos exemplos mais expressivos combina renda branca com uma saia de penas de avestruz e botas de inspiração utilitária. Em outro momento, um vestido laranja recebe flores de organza que percorrem sua superfície.
Consequentemente, o ornamento deixa de atuar apenas como enfeite. Ele participa da própria construção visual da roupa.
Essa lógica aproxima novamente o prêt-à-porter da couture. Afinal, a técnica não aparece para demonstrar complexidade. Ela existe para modificar a maneira como a peça ocupa espaço.


UMA BALENCIAGA MENOS SOBRE O IMPACTO IMEDIATO
O ponto mais interessante da coleção talvez esteja justamente na ausência de uma única imagem destinada a resumir todo o desfile.
Piccioli prefere construir uma narrativa por camadas.
Primeiro, aparecem peças mais lineares e monocromáticas. Depois, entram as cores intensas. Em seguida, a coleção amplia o vocabulário com volumes, rendas, penas, organza e vestidos fluidos.
Por isso o desfile não depende apenas do impacto da passarela. Ele funciona também na observação dos detalhes.
Essa escolha acompanha a própria evolução de Piccioli na Balenciaga. Em sua primeira coleção, o designer estabeleceu um diálogo explícito com Cristóbal Balenciaga e com outros nomes importantes da história da maison. Agora, entretanto, ele parece menos interessado em apresentar sua chegada e mais empenhado em consolidar uma linguagem.


O PRÓXIMO CAPÍTULO DE PICCIOLI
A primavera/verão 2027 reforça, portanto, uma Balenciaga interessada em unir extremos.
Há rigor, mas também suavidade, há arquivos, porém sem reprodução literal, há alta-costura, mas aplicada ao cotidiano. Há cor, entretanto, sem abandonar a sofisticação.
Sobretudo, existe uma tentativa de deslocar a ideia de luxo do espetáculo para a construção.
Piccioli não precisa transformar cada peça em um manifesto visual. Em vez disso, concentra sua atenção naquilo que acontece quando a roupa encontra o corpo.
E, justamente por isso, esta coleção representa mais do que uma mudança de paleta ou de silhueta. Ela consolida uma pergunta que começa a definir sua Balenciaga: como transformar a excelência técnica da couture em algo que faça sentido para a vida contemporânea?
Na passarela parisiense, a resposta apareceu em forma de roupas que valorizam movimento, matéria e construção. Agora, cabe ao guarda-roupa traduzir essa proposta para além do desfile.

