QUANDO A CHUVA ENTRA NO GUARDA-ROUPA
Na manhã desta quinta-feira, 1º de outubro, a Chloé apresentou sua coleção Spring/Summer 2027 durante a Paris Fashion Week. Sob a direção criativa de Chemena Kamali, a maison partiu de um elemento pouco associado ao imaginário solar da estação: a chuva. Assim, a coleção transformou proteção em linguagem de moda e colocou o romantismo característico da CHLOÉ diante de um cenário mais urbano e imprevisível.
Kamali encontrou, justamente na mudança climática, uma maneira de tensionar o vocabulário da Chloé.
Em vez de abandonar a feminilidade que marcou sua passagem pela maison, a designer a colocou sob camadas de proteção. Por isso, capas amplas, trench coats envernizados, chapéus de abas largas e peças translúcidas ganharam espaço na passarela.
O resultado combinou duas ideias aparentemente opostas. De um lado, surgiu a praticidade da roupa para a chuva. De outro, apareceram tules, rendas, babados e volumes delicados.
Essa oposição estruturou boa parte da coleção. A superfície impermeável protegia o corpo, enquanto a camada inferior preservava a sensualidade e a leveza.


O NOVO CAPÍTULO DA CHLOÉ DE KAMALI
Desde que assumiu a direção criativa da Chloé, em 2023, Kamali vem reconstruindo elementos reconhecíveis da maison a partir de seu próprio repertório. A designer alemã sucedeu Gabriela Hearst e possui uma relação anterior com a casa, onde também trabalhou antes de retornar ao comando criativo.
Entretanto, sua estratégia não consiste apenas em recuperar referências históricas.
Nas coleções recentes, Kamali vem investigando a chamada Chloé girl. Ela resgata o romantismo, o movimento e a sensualidade associados à maison, mas os desloca para uma mulher contemporânea.
Na temporada passada, por exemplo, a designer explorou referências folk, vestidos volumosos, estampas florais pequenas, tricôs artesanais e elementos ligados à cultura popular. Agora, ela leva essa mulher para fora de casa — literalmente.


IMPERMEÁVEIS, MAS ROMÂNTICOS
O contraste mais evidente apareceu nos casacos de chuva.
Um dos momentos mais marcantes trouxe um slicker amarelo-canário de comprimento longo, acompanhado por um chapéu de proporções generosas. Em outro momento, a mesma lógica apareceu em preto, criando uma atmosfera mais dramática.
Além disso, materiais transparentes reforçaram a ideia de revelar e esconder ao mesmo tempo.
Sob as peças impermeáveis, a coleção apresentou tules, rendas, babados e anáguas. Assim, a proteção não anulou a delicadeza. Pelo contrário, criou uma moldura inesperada para ela.
Esse recurso também demonstra uma característica importante do trabalho de Kamali: ela não trata o arquivo da Chloé como uma fórmula pronta. Em vez disso, utiliza seus códigos como matéria-prima para construir novas proporções.


O CORPO ENTRE TRANSPARÊNCIA E VOLUME
A silhueta acompanhou essa tensão.
As peças mais protetoras ganharam volumes amplos e superfícies brilhantes. Já as camadas internas apareceram mais próximas do corpo, criando contraste entre estrutura e fluidez.
A transparência também desempenhou papel importante. Porém, ela surgiu menos como provocação e mais como ferramenta de construção visual.
Rendas, tules e tecidos translúcidos apareceram entre camadas. Dessa maneira, o corpo não ficou simplesmente exposto. Ele surgiu através de uma composição de superfícies.
Além disso, os acessórios reforçaram essa leitura. Chapéus transparentes, óculos escuros de proporções generosas e bolsas com presença gráfica ajudaram a construir uma personagem coerente para a temporada.


A CHLOÉ BOÊMIA AMADURECE
A palavra “boho” acompanha a Chloé há décadas. Contudo, a coleção mostra como Kamali tenta sofisticar esse código.
Em vez de depender exclusivamente de vestidos fluidos e referências dos anos 1970, a designer acrescenta elementos utilitários, alfaiataria e proteção climática.
O romantismo, portanto, ganha estrutura.
Essa transformação importa porque amplia o território comercial e estético da maison. Uma mulher pode reconhecer a delicadeza característica da Chloé e, ao mesmo tempo, encontrar peças destinadas a uma rotina urbana.
É justamente nessa combinação que a coleção encontra parte de sua força conceitual.


UMA CHLOÉ PREPARADA PARA O IMPREVISÍVEL
A coleção Spring/Summer 2027 não abandona a Chloé romântica. Ela apenas muda o contexto em que essa mulher existe.
Agora, vestidos delicados convivem com capas impermeáveis. Rendas aparecem sob superfícies utilitárias. Chapéus protegem o rosto enquanto acessórios sofisticados preservam a teatralidade.
Portanto, Kamali encontrou na chuva mais do que um tema visual. Ela encontrou uma forma de atualizar a própria ideia de feminilidade da maison.
A Chloé desta temporada continua leve. Porém, tornou-se mais preparada para o mundo real.
E talvez seja justamente aí que esteja a evolução mais interessante da coleção: o romantismo não desaparece quando o clima muda. Ele simplesmente aprende a se proteger.
Chloé SS27: Chemena Kamali leva o romantismo da maison para a chuva, entre transparências, proteção e uma nova leitura do boho.



