O CORPO COMO PONTO DE PARTIDA
Em sua coleção Primavera/Verão 2027 para a Fendi, apresentada nesta quarta-feira, 23 de setembro, em Milão, Maria Grazia Chiuri coloca o corpo no centro da narrativa. Entretanto, a estilista não trata a anatomia apenas como uma questão de silhueta. Ela investiga a relação entre corpo, roupa e autonomia.
A ideia aparece desde o convite do desfile, que trouxe um verso do poeta norte-americano E. E. Cummings sobre a relação entre corpos. Além disso, a própria cenografia reforçou esse princípio. Espelhos criaram uma atmosfera quase teatral e fizeram do corpo uma parte essencial da experiência visual.
Assim, Chiuri desloca a lingerie de sua função tradicional. O que normalmente permanece sob a roupa ganha protagonismo. Sutiãs, boxer shorts, camisetas, peças esportivas e camisolas entram no guarda-roupa cotidiano. Portanto, a coleção não propõe simplesmente revelar o corpo. Ela questiona por que determinadas peças precisam permanecer escondidas.


A LINGERIE DEIXA DE SER COADJUVANTE
A lingerie funciona como o verdadeiro vocabulário da coleção. Bras aparecem sob chemisiers, vestidos e casacos. Ao mesmo tempo, peças inspiradas em boxer shorts aproximam códigos tradicionalmente masculinos de uma construção mais delicada.
O contraste fica ainda mais evidente nos materiais. Renda, transparências e tecidos leves encontram couro, denim, pele e elementos de acabamento mais robustos. Desse modo, Chiuri evita construir uma sensualidade exclusivamente delicada. Em vez disso, ela trabalha com tensão.
Há, ainda, uma questão importante de gênero. A coleção é co-ed e aproxima peças íntimas masculinas e femininas dentro de uma mesma linguagem. Portanto, o guarda-roupa passa a funcionar menos como um sistema de regras e mais como um campo de possibilidades.


RAFFAELLA CARRÀ ENTRA EM CENA
A referência cultural mais evidente vem de Raffaella Carrà. Chiuri recupera a imagem da artista italiana e, sobretudo, sua relação com o corpo, a performance e a moda.
A inspiração remete a uma apresentação televisiva de 1974, realizada em um estúdio cercado por espelhos, com Carrà e Adriano Celentano. A atmosfera daquele momento retorna ao desfile por meio da cenografia e da trilha sonora.
A escolha é significativa porque Carrà representa uma ideia de liberdade corporal muito particular na cultura italiana. Contudo, Chiuri não reproduz literalmente os anos 1970. Ela retira daquele imaginário uma atitude e a transporta para um guarda-roupa contemporâneo.
Por isso, surgem lenços na cabeça, franjas, estampas animais, peças de inspiração folclórica e acessórios que carregam uma energia disco. O passado aparece, mas não como fantasia histórica. Ele funciona como matéria-prima para uma leitura atual.


ENTRE BOUDOIR E RUA
A coleção também trabalha com uma oposição interessante entre intimidade e cotidiano. De um lado, aparecem vestidos leves, transparências, decotes profundos e superfícies rendadas. De outro, denim, casacos, coletes e peças utilitárias aproximam essa sensualidade da vida urbana.
Essa combinação impede que a coleção permaneça restrita ao universo do boudoir. A camisola pode ganhar estrutura de vestido. O sutiã pode assumir o papel do top. A renda pode aparecer sobre o corpo sem necessariamente produzir uma imagem frágil.
Além disso, Chiuri utiliza elementos mais pesados para interromper a delicadeza. Golas de inspiração punk, peças de pele e acessórios volumosos criam contraste. Assim, a sensualidade não depende apenas da exposição da pele. Ela nasce também do choque entre materiais, proporções e referências.


O DIÁLOGO COM O ARQUIVO DA FENDI
Embora a coleção olhe para a cultura pop, ela também conversa com códigos históricos da maison romana. A presença de pele e acessórios estruturados recupera uma parte importante do vocabulário da Fendi.
Ao mesmo tempo, a Baguette aparece em diferentes interpretações. O acessório, criado por Silvia Venturini Fendi em 1997, continua funcionando como um dos objetos centrais da identidade da casa. Nesta temporada, entretanto, ele participa de uma coleção muito mais interessada no corpo e na roupa do que em uma celebração puramente institucional do arquivo.
Esse equilíbrio é particularmente relevante para Chiuri. A estilista precisa dialogar com uma maison cuja história envolve pelletteria, pellicceria e acessórios, mas também precisa estabelecer uma linguagem própria dentro desse patrimônio. Portanto, a coleção aproxima tradição e transformação sem depender de uma reconstrução literal do passado.


A SENSUALIDADE COMO AUTONOMIA
No fim, a coleção não parece interessada em transformar sensualidade em espetáculo vazio. O ponto central está na autonomia de quem veste.
A própria escolha de lingerie sugere isso. Uma peça íntima muda de significado quando deixa de obedecer ao lugar que a tradição determinou para ela. Consequentemente, o corpo também deixa de funcionar como objeto passivo da roupa.
Essa leitura se conecta à trajetória de Chiuri, que frequentemente utiliza a moda para discutir independência e representação feminina. Na Fendi, entretanto, essa conversa ganha outra dimensão. O discurso aparece menos por frases explícitas e mais pela construção das próprias peças.
Por isso, a Primavera/Verão 2027 estabelece uma relação particular entre intimidade, memória e liberdade. A Fendi olha para os anos 1970, passa pela imagem de Raffaella Carrà e chega ao presente sem transformar nenhuma dessas referências em fantasia nostálgica.
O resultado é uma coleção que entende o corpo não como limite da roupa, mas como seu ponto de partida.



