O MINIMALISMO COMO PONTO DE PARTIDA
A Calvin Klein atravessa um de seus capítulos mais interessantes desde o retorno da Collection às passarelas. Em Nova York, Veronica Leoni apresentou sua visão para a primavera de 2027. Mais uma vez, a designer parte da linguagem essencialista associada à casa. Entretanto, ela evita tratá-la como um arquivo intocável. Em vez disso, desmonta seus códigos, retira excessos e procura entender o que ainda pode tornar uma peça radical hoje.
A escolha não acontece por acaso. Leoni assumiu a direção criativa da Calvin Klein Collection em 2024, com a missão de reconstruir a linha de luxo da marca. Assim, seu trabalho também representa uma retomada histórica. A Collection havia deixado de desfilar depois da saída de Raf Simons, em 2018, e voltou às passarelas com Leoni em 2025.
Para Leoni, minimalismo não significa necessariamente silêncio. A própria designer já resumiu sua abordagem ao afirmar que aceita ser minimalista, mas gosta da ideia de que minimalistas também podem ser “loud”. A frase ajuda a compreender sua relação com a Calvin Klein.
Por isso, a primavera de 2027 não deve ser lida apenas pela quantidade de elementos presentes em cada look. O interesse está justamente na construção. Uma gola deslocada, uma proporção alterada ou uma peça cotidiana retirada de seu contexto pode modificar completamente a percepção da roupa.
Nesse sentido, Leoni trabalha com uma ideia particularmente importante para a moda contemporânea: a sofisticação pode nascer da edição.
A designer também carrega uma formação pouco convencional para o circuito americano.


A HERANÇA DA CALVIN KLEIN SEM NOSTALGIA
Existe, entretanto, uma questão central no trabalho de Leoni: como recuperar a identidade de Calvin Klein sem transformar a coleção em uma sucessão de referências vintage?
A resposta começa no próprio arquivo
Calvin Klein foi um dos responsáveis por elevar o denim dentro da moda americana. A marca começou a incorporar jeans aos desfiles em 1976, antes de lançar sua divisão de Jeans em 1978. Para Leoni, esse momento inicial representa uma espécie de ponto zero da Collection.
A designer, porém, evita uma reconstrução literal. Em entrevista à ELLE, explicou que procura manter uma relação saudável com o arquivo. Em outras palavras, interessa-lhe estudar o passado sem ficar presa a ele. Essa distinção se tornou particularmente relevante agora, quando a estética dos anos 1990 voltou ao centro da cultura pop e da própria conversa sobre Calvin Klein.
Portanto, sua estratégia segue outra direção. Em vez de repetir o Calvin Klein dos anos 1990, Leoni investiga o período anterior, quando a casa ainda estabelecia as bases de sua linguagem.


O CORPO COMO ARQUITETURA
Outro eixo importante da era Leoni é a relação entre roupa e corpo.
Nesse sentido, na coleção de outono de 2026, a designer investigou o chamado “culto ao corpo” do final dos anos 1970 e início dos 1980. A pesquisa apareceu em peças sem mangas, recortes laterais e transparências. O corpo, portanto, entrou novamente no centro da narrativa da casa.
Essa escolha dialoga diretamente com a história de Calvin Klein. Desde as campanhas de underwear até a publicidade que transformou o jeans em fenômeno cultural, o corpo sempre ocupou um papel fundamental na construção da marca.
Leoni, entretanto, não precisa reproduzir a sensualidade explícita de outras décadas. Seu caminho passa pelo desenho. A roupa sugere o corpo por meio de linhas, volumes, aberturas e proporções.
Assim, a sensualidade deixa de depender exclusivamente da exposição. Ela passa a existir também naquilo que a roupa esconde.


SOLANGE KNOWLES COMO EXTENSÃO DA NARRATIVA
A escolha de Solange Knowles para a comunicação da coleção também merece atenção. A artista aparece associada à campanha de Spring 2027, reforçando uma conexão entre Calvin Klein e uma ideia mais ampla de cultura contemporânea.
Solange possui uma relação particularmente sofisticada com moda, música, performance e identidade visual. Sua presença, portanto, amplia a discussão para além da roupa.
Além disso, a escolha acompanha uma estratégia que Calvin Klein vem aprofundando: aproximar seus códigos históricos de figuras capazes de reinterpretá-los culturalmente. A casa não precisa mais depender apenas do imaginário publicitário que construiu nos anos 1990. Agora, pode colocar seus códigos em diálogo com artistas que possuem linguagem própria.


UMA CALVIN KLEIN MENOS LITERAL
O aspecto mais interessante da atual fase da Collection talvez esteja justamente nessa tensão.
De um lado, existe uma das identidades mais reconhecíveis da moda americana. De outro, existe uma diretora criativa que não demonstra interesse em simplesmente reproduzi-la.
Leoni trabalha entre esses dois pontos. Recupera o denim. Estuda o arquivo. Reconsidera o corpo. Simplifica a construção. Entretanto, evita transformar qualquer um desses elementos em fantasia histórica.
Essa estratégia também diferencia sua Calvin Klein do revival nostálgico que domina parte da moda contemporânea. Enquanto muitas marcas revisitam décadas específicas por meio de referências visuais imediatas, Leoni procura voltar às ideias que formaram a casa.
E essa diferença importa.


O VERDADEIRO LEGADO
Mais do que uma coleção sobre minimalismo, Calvin Klein Spring 2027 fala sobre edição.
A proposta parte de uma pergunta simples, porém difícil: o que acontece quando uma marca tão associada a seus próprios códigos decide retirar tudo aquilo que se tornou automático?
Leoni parece encontrar a resposta na origem. No denim antes do logo. No corpo antes da imagem publicitária. Na roupa antes da tendência.
Por isso, seu trabalho não depende de uma reinvenção espetacular. Ele acontece em escala mais precisa. A designer modifica proporções, reavalia materiais e questiona aquilo que parece óbvio.
Então, a força da Calvin Klein volta a residir justamente onde sempre esteve: na capacidade de fazer pouco parecer muito.
A diferença é que, agora, esse “pouco” passa por uma nova autora.



