DEZ ANOS DEPOIS
Anthony Vaccarello apresentou nesta terça-feira, em Paris, sua coleção feminina Spring/Summer 2027 para a Saint Laurent. O desfile acontece exatamente dez anos depois de sua chegada à maison, em 2016. Assim, a temporada ganha uma dimensão particular dentro de sua trajetória.
Desde então, Vaccarello construiu uma linguagem reconhecível. Ombros marcados, comprimentos curtos, transparências e uma sensualidade deliberada aparecem com elementos recorrentes. Porém, o designer nunca abandonou completamente a estrutura clássica da casa. Ao contrário, encontrou justamente nessa tensão o centro de sua interpretação.


O ARQUIVO SEM NOSTALGIA
A relação com Yves Saint Laurent aparece menos como reprodução e mais como matéria-prima. Vaccarello olha para o arquivo, identifica seus códigos e os desloca para o presente.
Essa abordagem acompanha toda a sua passagem pela maison. O Le Smoking, por exemplo, continua funcionando como referência para a alfaiataria. Porém, Vaccarello o trata como um princípio de construção, não como uma fantasia de época. Da mesma forma, ele revisita proporções, tecidos e silhuetas históricas sem transformar a coleção em uma reconstituição do passado.


A FORÇA DA ALFAIATARIA
A alfaiataria ocupa uma posição central na identidade contemporânea da Saint Laurent. Vaccarello trabalha com ombros fortes, linhas precisas e peças que aproximam códigos tradicionalmente masculinos de uma sensualidade feminina mais direta.
Além disso, essa construção cria uma silhueta de presença. O blazer não funciona apenas como peça formal. Ele define o corpo, estabelece proporções e muda a atitude de quem o veste. Portanto, a alfaiataria deixa de ser suporte e assume papel protagonista.


DESEJO E CONTENÇÃO
A sensualidade de Vaccarello raramente depende apenas da quantidade de pele exposta. Ela nasce, sobretudo, do contraste.
Uma peça estruturada pode acompanhar uma transparência. Uma silhueta rigorosa pode revelar o corpo, uma construção clássica pode ganhar um detalhe inesperado. Dessa maneira, a coleção trabalha com uma ideia de sedução mais sofisticada: aquilo que permanece oculto também participa da imagem.
Essa tensão entre contenção e provocação acompanha a assinatura de Vaccarello desde sua chegada à Saint Laurent. E, depois de uma década, já funciona como um dos códigos mais reconhecíveis de sua era.


O LUXO SEM EXCESSO
Vaccarello também entende que a opulência pode aparecer nos detalhes. Em vez de depender de ornamentação constante, a Saint Laurent utiliza materiais, acabamentos e proporções para introduzir riqueza visual.
Então, essa escolha se aproxima de uma ideia muito específica de luxo francês. O impacto não precisa vir da quantidade de elementos. Pode surgir de uma superfície, de um botão, de um tecido ou de uma construção precisa.
Por isso, a sofisticação da coleção não está apenas naquilo que chama atenção imediatamente. Ela também aparece nos detalhes que exigem uma segunda observação.


UMA ASSINATURA PRÓPRIA
Depois de dez anos, a questão mais interessante já não está em medir a distância entre Vaccarello e Yves Saint Laurent. Está em observar como o designer conseguiu transformar referências históricas em uma linguagem contemporânea.
Sua Saint Laurent preserva a sensualidade, a alfaiataria e o glamour da maison. Entretanto, acrescenta uma visão mais direta, mais física e, muitas vezes, mais provocadora.
Assim, a coleção de hoje funciona também como um ponto de síntese. Vaccarello não tenta apagar o arquivo. Tampouco pretende viver dentro dele. Ele seleciona, reduz e desloca seus códigos. E, justamente por isso, construiu uma Saint Laurent que pode ser reconhecida antes mesmo de o nome aparecer.



