Em meio à transformação da cidade Matarazzo, em São Paulo, o Mata Città propõe uma leitura expansiva da cozinha italiana. Mata Città: a nova interpretação da Itália em São Paulo não se resume ao cardápio. O projeto articula gastronomia, arquitetura, arte e hospitalidade em 1.600m². Além disso, distribui a experiência por sete ambientes, cada um com identidade própria. O resultado procura traduzir uma Itália afetiva, cinematográfica e profundamente ligada ao prazer de estar à mesa.
UMA NOVA FASE DA CIDADE MATARAZZO
Antes de tudo, vale olhar para o endereço. O restaurante ocupa um dos espaços da Cidade Matarazzo, complexo instalado no antigo conjunto hospitalar Matarazzo, na Bela Vista. O projeto de revitalização preservou edifícios históricos e integrou novas operações ao patrimônio existente.
Nesse contexto, o Mata Città assume uma função estratégica. Ele amplia a vocação da Cidade Matarazzo como destino de gastronomia, cultura, arte e lifestyle. O empreendimento surgiu da visão do empresário francês Alex Allard, responsável pela transformação do complexo.
A localização também importa. O restaurante fica a poucos metros da Avenida Paulista, na Alameda Rio Claro. Assim, conecta um dos principais eixos contemporâneos de São Paulo a uma arquitetura marcada pela memória da cidade.


UMA ITÁLIA VISTA PELO CINEMA
A atmosfera do Mata Città parte de uma referência muito específica. O projeto olha para o cinema italiano das décadas de 1960 e 1970, especialmente para a estética associada à Dolce Vita.
No entanto, a proposta não tenta reproduzir uma trattoria tradicional. Em vez disso, cria uma interpretação cenográfica da Itália. Luz quente, veludos, espelhos, cores saturadas e objetos vintage compõem esse vocabulário. Intervenções artísticas feitas à mão acrescentam outra camada.
O escritório TOCA, comandado por Malu Barretto, desenvolveu o projeto. A equipe distribuiu os 1.600 m² em sete ambientes. Cada espaço apresenta uma atmosfera própria, embora todos mantenham a mesma narrativa mediterrânea.
Essa variedade muda a percepção do restaurante. Em vez de um salão único e previsível, o visitante percorre diferentes cenários. Nesse sentido, o bar, as áreas de refeição e os espaços de circulação funcionam quase como capítulos de uma mesma história.


O CARDÁPIO: CLÁSSICOS SEM A PRETENSÃO DE REINVENTÁ-LOS
Na cozinha, o Mata Città escolheu um caminho igualmente claro. O restaurante trabalha com clássicos italianos e privilegia preparações reconhecíveis.
A proposta interessa justamente porque não depende da desconstrução. O menu procura recuperar receitas ligadas a diferentes regiões da Itália e adaptá-las ao ritmo de um restaurante contemporâneo.
Entre os destaques avaliados pela Veja São Paulo, aparecem o agnolotti del plin, típico do Piemonte, a lasanha à bolonhesa com creme de parmesão e o ossobuco, associado à tradição lombarda.
O agnolotti merece atenção. A massa recheada recebe um molho delicado de demi-glace e creme de parmesão. Já a lasanha segue uma leitura mais indulgente do clássico italiano. O ossobuco também foge um pouco da combinação mais previsível. Em vez do tradicional risoto de açafrão, a casa o acompanha de arroz perfumado com limão-siciliano.
Há ainda espaço para sobremesas de perfil mais clássico. A panna cotta de baunilha segue uma linha delicada. Já a torta de limão-siciliano com merengue tostado assume uma presença mais exuberante. Segundo a avaliação da Veja São Paulo, a torta serve três ou até quatro pessoas.


A EXPERIÊNCIA COMEÇA ANTES DA COMIDA
Entretanto, reduzir o Mata Città à cozinha seria perder justamente o aspecto mais particular do projeto.
O restaurante entende que a gastronomia contemporânea também trabalha com atmosfera. A iluminação influencia o ritmo. A música altera a percepção do espaço. Os materiais produzem sensações táteis. Além disso, as obras de arte criam pontos de atenção.
Por isso, a decoração não funciona apenas como pano de fundo para as fotografias. O projeto reúne cerâmicas, luminárias, quadros, fotografias, objetos garimpados e uma coleção de pratos. Artistas participaram de diferentes etapas da composição.
Nesse sentido, essa preocupação aproxima o Mata Città de uma tendência importante da hospitalidade internacional: restaurantes que constroem uma identidade visual tão definida quanto sua identidade gastronômica.


O BAR COMO PARTE DA NARRATIVA
O bar também ocupa uma posição relevante dentro do conjunto. A proposta mantém a mesma linguagem visual do restaurante, mas permite uma experiência menos formal.
Nesse sentido, o Mata Città entende uma mudança importante nos hábitos urbanos. O restaurante contemporâneo já não precisa funcionar apenas como destino para uma refeição completa. Pode receber um café, um encontro rápido, um aperitivo ou uma noite prolongada.
A própria operação contempla diferentes momentos do dia. O restaurante oferece café da manhã e café da tarde, além de almoço e jantar, com horários que variam conforme o dia da semana.


O VERDADEIRO LUXO DO MATA CITTÀ
No fim, o maior mérito do Mata Città talvez esteja na capacidade de criar uma identidade reconhecível.
São Paulo possui inúmeros restaurantes italianos. Poucos, entretanto, constroem uma experiência espacial dessa escala em torno da mesma narrativa.
O Mata Città aposta no excesso controlado. Nas texturas. Nos detalhes. Na cor, na memória, na teatralidade.
E, sobretudo, entende que um restaurante contemporâneo pode oferecer mais do que uma boa refeição. Pode criar uma atmosfera específica, pode provocar memória, pode transformar um almoço comum em uma experiência cultural.
Essa é a ambição do Mata Città. Não simplesmente servir a Itália, mas interpretá-la para uma cidade que há mais de um século incorporou seus sabores à própria identidade.



