ENTRE A SUAVIDADE E A ESTRUTURA
Nesta sexta-feira, 16 de outubro, Lilly Sarti abriu o quarto dia de São Paulo Fashion Week N61, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Para a ocasião, a estilista apresentou uma coleção que investiga a convivência entre força e delicadeza. Além disso, a proposta reafirma uma característica central da identidade da marca: a combinação de feminilidade, construção cuidadosa e contrastes de materiais.
A apresentação também encontrou na música um elemento importante de sua narrativa. Ao som de um piano de cauda tocado ao vivo, o desfile ganhou uma atmosfera contemplativa. Assim, a trilha acompanhou uma coleção que buscou estabelecer uma relação entre roupa, sensibilidade e experiência sensorial. A intenção, portanto, não se limitou à apresentação das peças, mas também envolveu a maneira como o público percebeu o conjunto.


O ANO CHINÊS DA CABRA COMO PONTO DE PARTIDA
A inspiração central da coleção veio do simbolismo associado ao Ano Chinês da Cabra, em referência a 2027. Nesse imaginário, a estilista encontrou uma aproximação entre persistência, harmonia e delicadeza. Entretanto, a referência não permaneceu apenas no campo conceitual. Ela também orientou o desenvolvimento de superfícies, estampas e texturas.
Os chifres do animal serviram como ponto de partida para experimentações têxteis. Dessa pesquisa surgiram jacquards com desenhos inspirados em suas formas, que transformaram a referência simbólica em linguagem visual. Desse modo, Lilly Sarti aproximou o repertório cultural do trabalho material, sem depender apenas de uma estampa literal para comunicar a inspiração.
A escolha também dialoga com a trajetória da grife, fundada em 2006 por Lilly e Renata Sarti. Ao longo dos anos, a marca construiu uma identidade que combina sensualidade, sofisticação e atenção às texturas. Nesta coleção, porém, esses códigos encontram uma nova interpretação por meio da relação entre estruturas marcadas e materiais delicados.


O CONTRASTE COMO PRINCÍPIO DE CONSTRUÇÃO
Um dos aspectos mais relevantes do desfile aparece na seleção dos tecidos. De um lado, tules e georgettes acrescentam transparência e movimento. De outro, gabardines, tricolines e algodões encorpados oferecem sustentação e definição às silhuetas.
O couro de ovelha também participa desse diálogo. Com textura macia, ele aparece em peças que acompanham o corpo e exploram uma sensação de segunda pele. Ao mesmo tempo, listras e xadrezes introduzem uma dimensão gráfica mais marcada, equilibrando a fluidez dos tecidos leves.
Essa oposição entre materiais não funciona apenas como recurso visual. Ela também interfere na construção das peças e na maneira como cada look ocupa a passarela. Enquanto os tecidos fluidos acompanham o movimento, os mais estruturados conferem presença e definição. Assim, a coleção transforma o contraste em um instrumento de linguagem, articulando delicadeza e força sem privilegiar exclusivamente uma delas.


A PESQUISA TÊXTIL E O VALOR DO TRABALHO ARTESANAL
A superfície das peças recebe atenção especial. Os jacquards, as aplicações de pedrarias e os trabalhos em tule revelam uma pesquisa que considera tanto o desenho quanto a execução. Além disso, a presença de estruturas flexíveis e mais rígidas amplia as possibilidades de acabamento e volume.
A cartela cromática também contribui para essa construção. Marrons e tons de mostarda convivem com vermelhos e azuis, que aparecem em combinações de color blocking. Em vez de limitar a coleção a uma única família de cores, a estilista explora contrastes que reforçam a identidade de cada composição.
Nesse contexto, o trabalho artesanal assume uma função importante. Pedrarias e intervenções têxteis acrescentam relevo às superfícies, enquanto os jacquards transformam a própria estrutura do tecido em elemento expressivo. Portanto, o refinamento não depende apenas da aparência final: ele também se manifesta na escolha dos materiais e nas técnicas empregadas para desenvolvê-los.


ACESSÓRIOS QUE AMPLIAM A NARRATIVA
Os acessórios acompanham a mesma lógica de contrastes. Bolsas de couro de ovelha aparecem ao lado de modelos de cetim com franjas bordadas. Além disso, alfinetes com pedras e brincos esmaltados à mão, adornados com pérolas, acrescentam diferentes escalas de ornamentação.
Nos calçados, a proposta percorre caminhos igualmente variados. Sapatilhas inspiradas no universo do jazz dividem espaço com sandálias rasteiras e modelos de salto confeccionados em couro também ampliam as possibilidades de composição.
A seleção evidencia uma atenção especial aos detalhes. Em vez de atuar apenas como complemento, os acessórios participam da construção visual dos looks e reforçam a relação entre textura, movimento e acabamento. Ao mesmo tempo, a variedade de calçados introduz diferentes possibilidades de uso, aproximando o repertório sofisticado da marca das necessidades de um guarda-roupa contemporâneo.


UMA IDENTIDADE QUE EVOLUI SEM PERDER SEUS CÓDIGOS
Desde sua fundação, a Lilly Sarti desenvolve um repertório próprio, marcado por contrastes e pela valorização da construção das peças. Nesta apresentação, a referência ao Ano Chinês da Cabra amplia esse vocabulário e oferece novas possibilidades para a pesquisa de superfícies e materiais.
Além disso, o desfile propõe uma experiência que ultrapassa a observação individual dos looks. A música ao vivo, a escolha das texturas e a relação entre cores e volumes contribuem para uma narrativa sensorial. Dessa forma, a coleção aproxima o trabalho de criação da experiência do público, em vez de tratar a passarela apenas como uma sucessão de roupas.
Ao reunir jacquards inspirados em formas naturais, tecidos fluidos, materiais encorpados e acessórios elaborados, Lilly Sarti reafirma a importância da pesquisa dentro de sua linguagem criativa. O resultado apresenta uma feminilidade que não depende de uma única silhueta ou de um único material. Pelo contrário, ela surge justamente do encontro entre opostos: estrutura e movimento, suavidade e presença, tradição artesanal e evolução contemporânea.



