UMA GUCCI DENTRO DA GUCCI
Em Milão, nesta sexta-feira, 25 de setembro, Demna apresentou a Primavera/Verão 2027 da Gucci. A coleção marca seu segundo desfile prêt-à-porter à frente da maison e, sobretudo, amplia uma investigação iniciada em sua estreia. Desta vez, o designer não procurou definir uma única Gucci. Em vez disso, reuniu diferentes imagens que o público construiu sobre a casa ao longo de décadas. Assim, aristocracia e cultura pop, tradição e desejo de consumo, sofisticação e excesso passaram a coexistir na mesma narrativa.
A própria cenografia estabeleceu o argumento.
Demna transformou o espaço do desfile em uma reprodução monumental de uma boutique Gucci. Havia produtos disponíveis para compra, provadores e até seguranças. Além disso, uma fachada cenográfica simulava uma rua movimentada de Milão. Os modelos, portanto, entravam no ambiente como consumidores que atravessavam a porta de uma loja real.
A escolha vai além do espetáculo.
Ao reproduzir o ponto de venda dentro da passarela, Demna colocou o próprio mecanismo do luxo dentro da apresentação. A loja deixou de funcionar apenas como destino comercial e passou a integrar a narrativa da coleção.
Consequentemente, a Gucci apareceu não apenas como uma casa de moda, mas como uma imagem cultural que circula entre desejo, consumo, memória e representação.


UMA COLEÇÃO SOBRE TODAS AS GUCCI
Demna partiu de uma constatação simples: quase todo mundo carrega uma imagem particular da Gucci.
Para alguns, a referência está no universo equestre que acompanha a origem da maison. Para outros, está na sensualidade de Tom Ford nos anos 1990. Há ainda quem associe a marca ao hip-hop, às bolsas com monograma, ao maximalismo ou à cultura jovem contemporânea.
Dessa maneira, a coleção não escolheu uma dessas identidades.
Escolheu todas.
O próprio Demna definiu a Gucci como uma marca capaz de transitar entre aristocracia e cultura pop, entre herança e desejo de massa. Essa tensão orientou a coleção e ajudou a explicar sua variedade de referências.


DO ARQUIVO AO PRESENTE
A primeira parte do desfile concentrou-se no masculino. A alfaiataria apareceu em construções precisas e monocromáticas. Óculos retangulares escuros reforçaram a atmosfera associada à Gucci dos anos 1990, especialmente ao período de Tom Ford.
Entretanto, a coleção não permaneceu presa àquela década.
Ombros largos e cinturas elevadas conduziram a narrativa para os anos 1980. Depois, jaquetas bomber em seda branca e couro preto introduziram outra camada. Correntes pesadas, óculos amplos e proporções relaxadas aproximaram a linguagem de códigos associados à cultura musical e à moda de rua.
Por fim, algumas silhuetas assumiram uma atitude deliberadamente desestruturada. Peças mais largas, bonés usados para trás e uma aparência menos polida trouxeram referências à maneira como uma nova geração de músicos veste Gucci hoje.
O movimento importa porque demonstra como Demna trabalha o arquivo.
Ele não procura reproduzir uma peça histórica. Em vez disso, identifica a imagem cultural que aquela peça criou e a transporta para outro contexto.


A ORIGEM EQUESTRE RETORNA
No feminino, a narrativa voltou ainda mais longe.
A Gucci nasceu em Florença, em 1921, ligada inicialmente ao trabalho artesanal em couro e à produção de artigos de viagem. A relação com o universo equestre tornou-se parte fundamental dessa identidade. Por isso, Demna abriu a seção feminina com uma referência direta ao universo dos jóqueis.
Logo depois, a coleção mudou de registro.
Mulheres mais velhas apareceram com uma elegância associada às tradicionais matriarcas italianas. A escolha ampliou a representação de quem pode ocupar o imaginário Gucci. Não se trata apenas da juventude que domina campanhas e redes sociais. Há também a mulher que acumulou repertório, patrimônio e códigos próprios de vestir.
Assim, Demna colocou diferentes gerações dentro da mesma casa.


A SENSUALIDADE TAMBÉM RETORNA
Na reta final, a coleção ganhou uma energia mais noturna.
Vestidos ajustados, superfícies brilhantes e volumes de pele sintética conduziram o desfile para um território mais extravagante. Alex Consani apareceu em um vestido preto curto que reinterpretou a linguagem dos vestidos brancos recortados de Tom Ford para a temporada de outono de 1996. Depois, Rosie Huntington-Whiteley, Anok Yai e Candice Swanepoel surgiram em propostas de glamour mais carregado. (Dazed Digital)
Entretanto, a sensualidade não apareceu isoladamente.
Ela funcionou como mais uma camada dentro da história da Gucci. A casa sempre cultivou uma relação particular com desejo, teatralidade e poder visual. Demna recuperou esses elementos, mas os colocou ao lado de alfaiataria, sportswear, códigos equestres e referências populares.
O resultado, portanto, não depende de uma única assinatura estética.
Depende do choque entre linguagens.


UMA CASA FEITA DE CONTRASTES
Na reta final, a coleção ganhou uma energia mais noturna.
Vestidos ajustados, superfícies brilhantes e volumes de pele sintética conduziram o desfile para um território mais extravagante. Alex Consani apareceu em um vestido preto curto que reinterpretou a linguagem dos vestidos brancos recortados de Tom Ford para a temporada de outono de 1996. Depois, Rosie Huntington-Whiteley, Anok Yai e Candice Swanepoel surgiram em propostas de glamour mais carregado. (Dazed Digital)
Entretanto, a sensualidade não apareceu isoladamente.
Ela funcionou como mais uma camada dentro da história da Gucci. A casa sempre cultivou uma relação particular com desejo, teatralidade e poder visual. Demna recuperou esses elementos, mas os colocou ao lado de alfaiataria, sportswear, códigos equestres e referências populares.
O resultado, portanto, não depende de uma única assinatura estética.
Depende do choque entre linguagens.



