O MAR COMO PONTO DE PARTIDA
Para a temporada Spring/Summer 2027, Marina Bitu apresenta Abissa, uma coleção que investiga as relações que investiga as relações entre o oceano, o conhecimento e o trabalho feminino. Na São Paulo Fashion Week N61, a estilista cearense transforma essas referências em uma narrativa que ultrapassa a representação literal do mar. Em vez disso, ela explora seus movimentos, suas matérias e as histórias de mulheres que dedicaram suas trajetórias a esse universo.
A apresentação aconteceu no antigo Noviciado Nossa Senhora das Graças das Irmãs Salesianas, edifício construído em 1920, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. O espaço passa por um processo de restauração e preservação. Assim, a arquitetura histórica acrescenta outra camada à coleção: enquanto as roupas investigam diferentes formas de conhecimento, o cenário evidencia a importância de preservar aquilo que carrega a memória.


TRÊS MULHERES, TRÊS FORMAS DE CONHECER O OCEANO
O conceito de Abissa se estrutura a partir de três trajetórias femininas. A primeira é a de Márcia Ribeiro, pescadora de Canoa Quebrada, no Ceará, que representa o conhecimento construído pela experiência e pela relação cotidiana com o mar. Há mais de três décadas, ela exerce uma atividade tradicionalmente associada aos homens.
Em outra perspectiva, a oceanógrafa brasileira Marta Vannucci introduz a dimensão científica. Pioneira nos estudos dos ecossistemas marinhos, ela dedicou sua carreira à investigação e à compreensão da vida nos oceanos. Sua presença amplia a narrativa para além da paisagem e aproxima a coleção da pesquisa ambiental.
Por fim, a geóloga e cartógrafa Marie Tharp representa a capacidade de revelar o que os olhos não alcançam. Seus mapas contribuíram para tornar visível a topografia do fundo oceânico e para o desenvolvimento da compreensão científica das estruturas submarinas. Desse modo, as três referências articulam experiência, investigação e descoberta. O mar deixa de funcionar apenas como inspiração visual e passa a representar um campo de conhecimento.


A CONSTRUÇÃO DA COLEÇÃO: LEVEZA E MOVIMENTO
Na passarela, Marina Bitu traduz esse repertório por meio de tecidos leves, transparências e sobreposições. O desfile começa com uma composição em tom areia, na qual formas triangulares evocam as velas das embarcações. A referência aparece de maneira indireta. Em vez de reproduzir literalmente objetos náuticos, a estilista incorpora suas linhas à construção das peças.
Além disso, o plissado, um dos recursos recorrentes no trabalho da marca, ganha protagonismo. As dobras acompanham o movimento do corpo e criam variações de superfície. Ao mesmo tempo, recortes e transparências estabelecem um equilíbrio entre revelação e cobertura. A roupa, portanto, não depende apenas de sua silhueta: ela também se transforma conforme o movimento de quem a veste.
Essa fluidez encontra apoio em materiais como organza de seda pura, gazar de seda pura e voil. Cada tecido responde à luz e ao movimento de maneira particular. Assim, a coleção constrói sua relação com o oceano por meio da própria matéria têxtil, sem depender exclusivamente de estampas temáticas.


BORDADOS, METAIS E A MATÉRIA DO FUNDO DO MAR
Os detalhes reforçam a dimensão material de Abissa. Nos bordados, miçangas, vidrilhos e canutilhos formam composições que remetem aos corais. Já placas circulares de latão, com banho dourado ou prateado, aparecem aplicadas em vestidos e blusas como alternativas aos paetês convencionais.
Essas escolhas deslocam a referência marítima para a superfície das roupas. Em vez de depender somente de imagens de ondas ou de paisagens oceânicas, a estilista explora brilho, textura e relevo. Consequentemente, o conceito também se manifesta por meio do toque e da maneira como os materiais refletem a luz.
O resultado aproxima ornamentação e pesquisa de materiais. Os elementos decorativos não surgem isoladamente: eles dialogam com a leveza dos tecidos e com as referências naturais que orientam o projeto.


UMA CARTELA ENTRE AREIA, AZUL E VERMELHO
A paleta acompanha a diversidade de referências da coleção. Tons de areia estabelecem uma ligação com a paisagem costeira, enquanto azul, preto e off-white ampliam as possibilidades de contraste. O vermelho, por sua vez, introduz um ponto de intensidade cromática.
Além disso, algumas peças incorporam estampas que remetem ao oceano. Outras exploram sobreposições e recortes para criar volume. A coleção, portanto, não se limita a uma interpretação literal da paisagem marítima. Em vez disso, alterna alusões reconhecíveis e soluções formais que deixam a construção das roupas assumir o protagonismo.
Essa variação também impede que a narrativa dependa de uma única imagem do mar. A paleta contempla tanto a sobriedade dos tons neutros quanto a presença de cores mais intensas. Assim, a unidade surge da relação entre os elementos, e não da repetição de um motivo visual.


MODA COMO FORMA DE INVESTIGAÇÃO
Em Abissa, Marina Bitu organiza sua proposta a partir de uma ideia central: o oceano reúne diferentes formas de trabalho, conhecimento e descoberta. A pescadora, a cientista e a cartógrafa não representam apenas três biografias distintas. Elas demonstram como um mesmo território pode produzir saberes por caminhos diversos.
Essa perspectiva também orienta a construção das roupas. As transparências, os plissados, as fibras naturais e os bordados traduzem aspectos do conceito sem exigir uma reprodução literal de suas referências. Além disso, a colaboração artesanal acrescenta à coleção uma dimensão concreta, na qual o conhecimento dos materiais participa do resultado final.
Ao apresentar Abissa na SPFW, a estilista cearense articula pesquisa, memória e construção têxtil. O oceano aparece, assim, não apenas como paisagem, mas como um território de relações humanas e científicas. É nessa combinação que a coleção encontra sua identidade: na capacidade de transformar diferentes formas de conhecimento em linguagem de moda.



