UMA NOVA ETAPA GANHA FORMA
Em Paris, nesta quarta-feira, 30 de setembro, Antonin Tron apresentou a coleção feminina Primavera/Verão 2027 da Balmain. O desfile aconteceu às 13h30 no horário parisiense e marcou o segundo capítulo de sua direção criativa na maison.
Além disso, o momento carrega um peso particular. Tron assumiu a Balmain no fim de 2025, depois da saída de Olivier Rousteing, que permaneceu 14 anos à frente da casa. Portanto, esta coleção representa algo diferente de uma simples continuidade. Ela mostra quanto o designer conseguiu transformar a pesquisa inicial em uma linguagem própria depois de mais tempo dentro da maison.
Sobretudo, a temporada Primavera/Verão 2027 acontece durante uma Paris Fashion Week marcada pela consolidação de novas direções criativas. A programação segue de 28 de setembro a 6 de outubro e reúne 68 desfiles e dezenas de apresentações. Nesse cenário, Balmain ocupa uma posição estratégica: Tron já passou pela estreia e agora precisa aprofundar a proposta.


DO IMPACTO DE ROUSTEING À PRECISÃO DE TRON
Para entender o desfile desta quarta-feira, entretanto, é preciso voltar alguns meses. Olivier Rousteing construiu uma BALMAIN extremamente reconhecível por meio de exuberância, sensualidade explícita, logomania, celebridades e uma comunicação digital de enorme alcance.
Tron escolheu outra rota. Em sua estreia, o designer voltou aos arquivos de Pierre Balmain e procurou recuperar elementos menos associados à imagem pop que a maison consolidou nas últimas décadas. Assim, trouxe novamente ao centro a construção arquitetônica do corpo, o drapeado, a alfaiataria e uma sensualidade menos dependente do excesso.
Além disso, a primeira coleção surgiu em apenas alguns meses de preparação. Por isso, Tron tratou aquele trabalho como uma espécie de introdução ao seu pensamento. A crítica especializada também identificou esse caráter de prefácio, enquanto o próprio designer definiu sua abordagem por meio da ideia de “minimal opulence”.
Agora, seis meses depois, a situação mudou. Tron conhece melhor os ateliês, os arquivos, as equipes e, sobretudo, a cliente Balmain. Portanto, a Primavera/Verão 2027 oferece uma oportunidade mais ampla para desenvolver aquilo que apareceu apenas como sinal na coleção anterior.


O ARQUIVO COMO MATÉRIA-PRIMA, NÃO COMO NOSTALGIA
A relação com Pierre Balmain continua fundamental. No entanto, Tron não parece interessado em reconstruir literalmente uma Balmain histórica. Seu trabalho parte do arquivo para investigar quais elementos ainda possuem força dentro do guarda-roupa contemporâneo.
Pierre Balmain fundou a maison em 1945. Desde então, a casa construiu uma identidade ligada à elegância francesa, à precisão da construção e a uma visão arquitetônica da silhueta. Ao recuperar esses códigos, Tron procura estabelecer uma conexão entre passado e presente sem transformar a coleção em uma reconstituição de época.
Na primeira coleção, essa pesquisa apareceu de maneira bastante concreta. Tron buscou referências em criações da década de 1940 e nas técnicas de drapeado desenvolvidas pela Balmain nos anos 1950. Além disso, recuperou a história da jaqueta criada por Pierre Balmain para a aviadora Danielle Décuré, em 1975, transformando a peça em um dos pontos de partida da coleção.
Entretanto, a importância desse repertório ultrapassa a citação histórica. O arquivo funciona como uma ferramenta para compreender proporção, construção e movimento. Assim, Tron encontra no passado uma maneira de discutir o presente.


CORPO, MOVIMENTO E SENSUALIDADE
Sobretudo, o corpo permanece no centro da proposta de Tron. O designer construiu sua carreira em torno de roupas que acompanham a anatomia sem necessariamente depender de uma estrutura rígida.
Na Balmain, essa característica ganha outra dimensão. Afinal, Pierre Balmain desenvolveu uma linguagem marcada por silhuetas esculpidas e por uma relação cuidadosa entre roupa e corpo. Tron reconhece justamente esse ponto de contato entre sua própria trajetória e a história da maison.
Além disso, o drapeado aparece como uma ferramenta essencial. Em vez de tratar a sensualidade apenas pela exposição, Tron trabalha com tensão entre revelar e esconder. Consequentemente, o tecido assume uma função estrutural. Ele acompanha o movimento, cria volume e modifica a leitura da silhueta conforme o corpo caminha.
Essa lógica também explica a expressão “minimal opulence”. O luxo não precisa desaparecer. Entretanto, ele pode surgir na qualidade do material, na construção, na proporção e no acabamento, em vez de depender exclusivamente de ornamentação ostensiva.


UMA BALMAIN MAIS AMPLA
Ao mesmo tempo, existe uma transformação que ultrapassa a passarela. A atual Balmain tenta ampliar sua definição de guarda-roupa.
Segundo Matteo Sgarbossa, CEO da maison, a empresa passou por uma transformação iniciada em 2024. A estratégia procura afastar a percepção da Balmain como uma marca concentrada em roupas de noite e ocasiões especiais. Em contrapartida, a empresa quer construir um guarda-roupa mais completo, capaz de acompanhar a cliente durante diferentes momentos do dia.
Nesse processo, os acessórios ganharam importância. Sgarbossa afirmou à Vogue Business que aproximadamente 90% da receita vinha do ready-to-wear e destacou a necessidade de desenvolver leather goods como parte importante da nova arquitetura comercial da empresa.
Por isso, a coleção desta quarta-feira não interessa apenas pelo que acontece com vestidos, saias ou alfaiataria. Bolsas e sapatos receberam atenção especial no desenvolvimento do desfile. Antes da apresentação, Sgarbossa já havia antecipado que esses acessórios teriam papel protagonista.
A estratégia também dá continuidade ao Sphynx, bolsa introduzida na estreia de Tron. A peça recupera uma forma de ampulheta inspirada em um vestido de 1977 e representa uma tentativa de criar uma linguagem de acessórios própria para essa nova fase.


O NOVO CAPÍTULO DA BALMAIN
Por fim, o desfile de 30 de setembro coloca Antonin Tron em uma posição diferente daquela que ocupava seis meses atrás. Ele já não precisa apenas apresentar uma nova direção. Agora, precisa demonstrar que essa direção consegue sustentar uma maison inteira.
A Primavera/Verão 2027 chega, portanto, como uma continuação consciente. Ao mesmo tempo, ele abre espaço para uma assinatura mais individual. A Balmain continua reconhecível, mas procura abandonar a dependência de uma única imagem de glamour.
E isso importa porque a transformação atual não acontece somente na estética. Ela envolve patrimônio, produtos, acessórios, varejo, preços e comunicação. Consequentemente, a coleção ganha significado maior dentro da reconstrução estratégica dentro da casa.
Ainda assim, a força dessa nova Balmain dependerá de uma questão simples: até onde Tron conseguirá levar esses códigos sem transformá-los em fórmula? A resposta começa a aparecer agora, em Paris.
Por enquanto, o movimento é claro. Depois de uma primeira coleção construída como introdução, Antonin Tron começa a ocupar a Balmain como uma linguagem mais consciente de seu passado e, sobretudo, mais interessada em construir seu próprio futuro.



