A saia como ponto de partida
Em Milão, a Prada abriu a temporada Primavera/Verão 2027 com uma coleção construída a partir de um gesto aparentemente simples: olhar novamente para a saia. Sob a direção criativa de Miuccia Prada e Raf Simons, porém, o clássico ganhou novas proporções, materiais e tensões. Assim, a peça deixou de funcionar apenas como elemento de um look e passou a organizar boa parte da narrativa da coleção.
A escolha não acontece por acaso. A saia ocupa um lugar particular na história da Prada. Miuccia Prada já tratou a peça como um elemento fundamental de sua linguagem, justamente por sua capacidade de mudar completamente a leitura de um corpo. Agora, essa familiaridade retorna sob uma perspectiva mais exuberante.
Além disso, a coleção explora a saia em diferentes pesos e construções. Há pregas marcadas, volumes, fendas altas e superfícies ornamentadas. Em seguida, surgem cristais, paetês, rosetas e aplicações que aproximam a peça de uma ideia quase joalheira. Portanto, o que poderia parecer um item cotidiano ganha uma presença deliberadamente teatral.


O contraste entre simplicidade e excesso
A força da coleção está, sobretudo, na oposição. De um lado, aparecem peças próximas do guarda-roupa cotidiano. De outro, entram superfícies brilhantes, bordados e volumes expressivos.
Essa tensão aparece com clareza na combinação entre tops tipo sutiã e saias elaboradas. Enquanto a parte superior reduz a construção do look ao essencial, a parte inferior concentra informação visual. Assim, Prada cria uma espécie de desequilíbrio calculado.
Além disso, a dupla trabalha com elementos que parecem pertencer a universos distintos. Coletes de tricô, camisas, jaquetas de couro e casacos utilitários convivem com organza, cristais e aplicações florais. Como resultado, a coleção não procura construir uma feminilidade homogênea. Pelo contrário, ela permite que diferentes códigos ocupem o mesmo corpo.


A memória da Prada dos anos 1990 e 2000
A coleção também conversa diretamente com o arquivo visual da própria casa. Um dos elementos mais evidentes é o velcro, material que já apareceu na linguagem Prada desde a fase de exploração do sportswear no fim dos anos 1990 e retornou em outros momentos da trajetória da marca.
Desta vez, o recurso aparece de maneira particularmente gráfica. Faixas de velcro unem e estruturam saias, criando uma construção quase funcional. Entretanto, algumas dessas superfícies recebem cristais, o que transforma um mecanismo utilitário em detalhe ornamental.
Ao mesmo tempo, referências aos anos 1960 e 1970 atravessam a coleção. Estampas florais pequenas, cores intensas e determinados volumes recuperam códigos que Miuccia Prada já explorou anteriormente. Contudo, Raf Simons ajuda a deslocá-los de seu contexto original. O resultado não funciona como reprodução de uma década. Funciona como reinterpretação.


A beleza do inesperado
Outro aspecto importante está nos encontros improváveis. Estampas florais aparecem ao lado de pinceladas gráficas. Tons como verde vibrante, rosa, amarelo e vermelho convivem com preto, branco e cinza. Portanto, a paleta não segue uma única lógica cromática.
Esse princípio também aparece na construção das peças. Algumas roupas sugerem vestidos, mas revelam saias sobrepostas. Outras misturam camadas leves com jaquetas de couro de aparência pesada. Enquanto isso, tecidos transparentes deixam elementos inferiores parcialmente visíveis.
Desse modo, Prada retoma uma de suas operações mais reconhecíveis: colocar elementos que parecem incompatíveis no mesmo lugar e permitir que o conflito produza uma nova leitura. A novidade, aqui, não depende de inventar uma peça inexistente. Depende de alterar a relação entre peças conhecidas.


O corpo entre proteção e exposição
A coleção também trabalha com uma oposição física bastante precisa. As saias podem ganhar volume, peso e ornamentação. Em contraste, os tops deixam áreas maiores do corpo à mostra.
Essa relação cria uma silhueta que alterna proteção e exposição. Além disso, o styling reforça essa dinâmica por meio de sobreposições transparentes, camadas de tricô e peças estruturadas.
Há, portanto, uma questão de proporção. Quanto maior e mais complexa se torna a saia, mais reduzida pode parecer a parte superior. Quando o top ganha maior presença, a saia responde com linhas mais diretas. Assim, o equilíbrio não nasce da simetria, mas da oposição.


Prada e a ideia de “novo”
Talvez o aspecto mais interessante da coleção esteja justamente na maneira como Prada trata a novidade. Em vez de abandonar seus códigos, Miuccia Prada e Raf Simons reorganizam elementos que já pertencem ao universo da casa.
A estratégia acompanha uma discussão que a dupla vem desenvolvendo nas temporadas recentes. Em fevereiro, na coleção de inverno 2026, os designers exploraram diferentes possibilidades de um mesmo guarda-roupa por meio de camadas e recombinações. Agora, a coleção de verão desloca esse raciocínio para uma peça específica e mostra quantas identidades uma saia pode assumir.
Por isso, a Prada de Primavera/Verão 2027 não depende de uma tendência isolada. Ela trabalha com memória, contraste e transformação. Além disso, reafirma uma característica central da casa: a capacidade de transformar aquilo que parece familiar em algo intelectualmente inquietante.
Em Milão, a saia não apareceu apenas como protagonista de uma temporada. Ela funcionou como instrumento para discutir proporção, feminilidade, ornamentação e memória. E, justamente por isso, a coleção encontra sua força menos na novidade absoluta do que na capacidade de fazer o conhecido parecer novamente desconhecido.



