UMA CASA QUE ESCOLHEU OLHAR PARA TRÁS
Para celebrar os 45 anos de Carolina Herrera, Wes Gordon voltou ao ponto de origem da maison: Nova York. No David H. Koch Theater, no Lincoln Center, o diretor criativo apresentou a coleção Spring 2027 como uma leitura contemporânea do universo que definiu a marca desde 1981. Além disso, o cenário reforçou a relação entre a casa e a cidade. Cerca de 28.800 tulipas amarelas transformaram o espaço em uma espécie de Central Park particular. Ao mesmo tempo, a coleção recuperou personagens, códigos e referências da Nova York que acompanhou os primeiros anos de Herrera.
O aniversário poderia ter levado a coleção para o território previsível da nostalgia. Gordon, porém, tomou outra direção. Em vez de reproduzir literalmente os anos 1980, ele investigou o que aqueles códigos poderiam significar agora.
Para isso, voltou às mulheres que ajudaram a construir o imaginário social da marca . C. Z. Guest, Diana Vreeland e Lee Radziwill aparecem como referência desse universo. Eram mulheres associadas à alta sociedade nova-iorquina, mas também à cultura, à arte e à imprensa.
Gordon retomou ainda a ideia das chamadas “ladies who lunch”. Entretanto, a mulher Herrera de 2026 não vive apenas entre almoços e compromissos sociais. Ela atravessa a cidade, trabalha, participa de reuniões e muda de ambiente ao longo do dia. Por isso, a coleção equilibrou a formalidade e o movimento.


A ELEGÂNCIA MUDOU DE PROPORÇÃO
Essa atualização apareceu principalmente na construção das roupas.
Jaquetas alongadas encontraram saias amplas em linha A. O tweed, a popeline de algodão, a gabardine e o denim sustentaram os looks diurnos. Depois, chiffon, organza, renda metalizada e gazar levaram a coleção para uma dimensão mais sofisticada.
Além disso, Gordon trabalhou a leveza como ferramenta de modernização. Em vez de abandonar os códigos tradicionais da Herrera, ela alterou proporções, materiais e construção. Assim, peças reconhecíveis ganharam outra relação com o corpo e com o movimento.
Essa estratégia importa porque resume o trabalho de Gordon à frente da maison. Desde que assumiu a direção criativa, em 2018, ele constrói uma continuidade entre a assinatura de Carolina Herrera e uma linguagem contemporânea. Portanto, sua contribuição não depende de romper com o passado. Depende de saber quais elementos ainda possuem força e como reposicioná-los.


FLORES, POÁS E A ENGENHARIA DO EXCESSO
A coleção também recuperou alguns dos códigos mais reconhecíveis da casa.
As flores apareceram sobre fundos escuros, adquirindo uma aparência mais gráfica. Os poás atravessaram diferentes propostas. Já os babados ganharam uma construção particularmente elaborada: centenas de pequenas tiras de organza formaram volumes precisos.
Esse detalhe revela algo essencial sobre a coleção. A exuberância não dependeu apenas do impacto visual. Ela exigiu técnica.
Rendas bordadas, trabalhos metálicos, aplicações e superfícies ornamentadas demonstraram o papel do ateliê na construção da imagem Herrera. Ao mesmo tempo, a combinação entre materiais delicados e estruturas mais rígidas impediu que o resultado se tornasse excessivamente ornamental.
A paleta seguiu a mesma lógica. Preto, branco e o tradicional Herrera Red dividiram espaço com tons como sorbet, powder, cielo e cucumber. Entretanto, o amarelo táxi assumiu uma função especial. A cor remete simultaneamente à paisagem nova-iorquina e à identidade da marca.


QUANDO O ARQUIVO ENCONTRA A CIDADE
A coleção ganhou profundidade justamente quando deixou de tratar o arquivo como uma coleção de referências decorativas.
Uma das colaborações aconteceu com a Andy Warhol Foundation for the Visual Arts. Pela primeira vez, o retrato de Carolina Herrera realizado por Andy Warhol recebeu licença para aparecer em peças da coleção. A imagem surgiu em um minivestido e em acessórios bordados.
A escolha é particularmente significativa. Warhol pertence ao mesmo universo cultural que ajudou a definir a Nova York frequentada por Herrera. Dessa maneira, o retrato não funciona apenas como homenagem. Ela conecta moda, arte e a própria construção pública da imagem da fundadora.
Outra referência veio de The New Yorker. Um dos vestidos reproduziu a capa da publicação de 1981 que coincidiu com o primeiro desfile de Carolina Herrera em Nova York. O skyline de Manhattan ganhou uma nova interpretação pelas mãos do ateliê.
Assim, a maison transformou dois documentos culturais em objetos de moda. Mais do que citar o passado, Gordon incorporou o passado à construção das peças.


A JOALHERIA COMO EXTENSÃO DA NARRATIVA
A parceria com a Taffin acrescentou outra camada ao desfile.
A relação possui uma origem nova-iorquina. As duas casas compartilham uma história ligada ao endereço 954 Madison Avenue. Para a coleção, James de Givenchy criou uma seleção de joias que dialoga diretamente com os códigos de Herrera.
Flores apareceram nos brincos. Esferas douradas retomaram referências de joias usadas pela própria Carolina Herrera. Além disso, um anel de cerâmica e ouro evocou o característico batom vermelho da fundadora.
Uma das peças mais elaboradas reuniu mais de 800 contas de cerâmica feitas manualmente. Portanto, a joalheria não entrou apenas como acabamento. Ela participou da narrativa da coleção e reforçou a importância do trabalho artesanal dentro desse universo.


O LUXO COMO ATITUDE, NÃO COMO NOSTALGIA
O aspecto mais interessante do desfile talvez esteja justamente na maneira como Gordon trata a herança da marca.
Carolina Herrera possui códigos extremamente reconhecíveis: camisas brancas, volumes dramáticos, flores, poás, vermelho, alfaiataria e vestidos de ocasião. Ainda assim, uma maison não permanece relevante apenas porque possui códigos fortes. Ela precisa demonstrar que esses códigos continuam capazes de conversar com o presente.
Nesse sentido, Spring 2027 funciona como um estudo de continuidade.
Gordon não desmonta a feminilidade da Herrera para torná-la contemporânea. Em vez disso, ele preserva sua exuberância e modifica sua construção. A roupa continua elegante, porém ganha mobilidade. Continua sofisticada, porém aceita referências mais cotidianas. Continua teatral, porém entende o ritmo de uma mulher que vive em uma cidade em movimento.
Por fim, essa coleção transforma o aniversário de 45 anos em algo maior do que uma retrospectiva. Ela reafirma uma ideia central da Carolina Herrera: a identidade de uma maison não precisa permanecer imóvel para permanecer reconhecível.
Em Nova York, Wes Gordon encontrou justamente esse equilíbrio. Recuperou a cidade de 1981, mas desenhou para a mulher de hoje. E, ao fazer isso, mostrou que tradição também pode ser uma forma de modernidade.



