Quando o espectador deixa de observar
Na Casa Bradesco, em São Paulo, Es Devlin propõe uma experiência que começa justamente onde muitas exposições terminam: no próprio visitante. Em Sou o Outro do Outro, sua primeira mostra no Brasil, a artista britânica transforma arquitetura, luz, som e participação coletiva em instrumentos para investigar identidade e alteridade. Além disso, a exposição desloca o público da posição de observador. Aqui, cada pessoa interfere no percurso e, consequentemente, também na obra.
A curadoria de Marcello Dantas parte de uma ideia ligada ao pensamento do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: a perspectiva não apenas interpreta o mundo. Ela participa da sua constituição. Portanto, a pergunta central da exposição não se resume a “quem sou eu?”. Ela avança para outra questão: quem eu me torno quando reconheço que também existo a partir do olhar do outro?
Esse deslocamento sustenta toda a mostra. Afinal, Devlin não constrói ambientes para serem simplesmente contemplados. Ela cria situações. O visitante entra, percorre, interfere, compartilha e, sobretudo, percebe a própria presença em relação às outras pessoas.


Uma artista entre palco, arquitetura e arte
A trajetória de Es Devlin ajuda a compreender a dimensão dessa proposta.
Há mais de três décadas, a artista transita entre cenografia, arquitetura, arte e design de experiências. Seu repertório inclui instituições como Tate Modern, Victoria and Albert Museum e Serpentine Gallery. Além disso, Devlin criou projetos para grandes eventos internacionais e cenografias para artistas como Beyoncé, Lady Gaga, Bad Bunny, Kendrick Lamar e U2.
Entretanto, reduzir seu trabalho à cenografia de grandes espetáculos seria insuficiente.
Devlin utiliza o palco como laboratório para investigar uma questão maior: como o espaço pode modificar a maneira como percebemos uma narrativa? Por isso, seus projetos frequentemente ultrapassam a função decorativa. A arquitetura cria movimento. A luz altera a percepção. O som constrói atmosfera. E o público completa o significado.
Em Sou o Outro do Outro, essa lógica encontra um território especialmente fértil. Sem a necessidade de uma performance musical ou teatral, a própria presença humana passa a produzir a experiência.


A biblioteca antes do labirinto
O percurso começa com Infinite Library, uma biblioteca concebida como arquivo de narrativas coletivas. A instalação introduz uma das ideias fundamentais da exposição: aquilo que consideramos individual frequentemente nasce de experiências compartilhadas.
Livros, imagens, palavras e referências constroem nossa percepção muito antes de percebermos sua influência. Assim, a biblioteca funciona como uma espécie de prólogo conceitual. Antes de questionar nossa imagem, Devlin questiona aquilo que construiu nossa imaginação.
A escolha também estabelece uma relação sofisticada entre conhecimento e identidade. Afinal, ninguém constrói sozinho o repertório que utiliza para compreender o mundo.
Nesse sentido, a biblioteca não representa apenas conhecimento acumulado. Ela representa influência.


Mirror Maze: o fim do espelho como confirmação
Depois, o percurso chega a Mirror Maze, um dos trabalhos mais contundentes da mostra.
O labirinto utiliza superfícies espelhadas para fragmentar a imagem do visitante. Em vez de devolver um reflexo estável, os espelhos multiplicam, distorcem e deslocam a percepção do corpo. Consequentemente, a experiência transforma um objeto cotidiano em uma ferramenta de questionamento.
Existe ainda uma inversão importante.
Normalmente, o espelho confirma nossa presença. Devlin faz o contrário. Ela retira a segurança do reflexo conhecido.
A instalação questiona, portanto, uma das ideias mais antigas associadas à imagem: a de que olhar para si significa necessariamente reconhecer-se.
Aqui, o reconhecimento falha. E justamente nessa falha surge a reflexão sobre identidade.
O trabalho também desmonta uma leitura simplista do mito de Narciso. Em vez de reforçar o fascínio pela própria imagem, Devlin utiliza o espelho para mostrar o desconforto que surge quando a imagem deixa de corresponder àquilo que esperamos encontrar.


O humano não ocupa o centro sozinho
Essa reflexão se amplia em Come Home Again.
A instalação aproxima diferentes espécies e formas de presença para discutir interdependência. Dessa maneira, Devlin desloca o foco do indivíduo para uma rede mais ampla de relações entre seres humanos, animais, culturas e ambientes.
Essa escolha ganha relevância em um momento no qual a discussão ambiental exige uma revisão da posição humana dentro dos ecossistemas.
A questão, portanto, não consiste apenas em proteger a natureza como algo externo. Consiste em reconhecer que fazemos parte dela.
Por isso, a exposição conecta identidade e sustentabilidade sem transformar a questão ambiental em discurso decorativo. O tema aparece integrado à própria estrutura da experiência.


Screen Share e a ideia de pertencimento
No encerramento, Screen Share trabalha com a circulação de imagens entre corpo, papel e memória. A instalação conclui o percurso retomando a noção de troca. (British Council)
Depois de passar pela biblioteca, pelo espelho, pelo desequilíbrio, pela relação entre espécies e pela criação coletiva, o visitante chega a uma conclusão menos individualista.
Pertencer não significa encontrar uma identidade completamente isolada.
Significa participar de uma rede.
Por isso, a exposição constrói seu argumento de maneira gradual. Primeiro, apresenta aquilo que recebemos. Depois, questiona aquilo que vemos. Em seguida, coloca o corpo em situação de vulnerabilidade. Finalmente, amplia o campo para outras pessoas, espécies, memórias e formas de existência.


A arquitetura como instrumento de pensamento
Talvez esse seja o aspecto mais sofisticado do trabalho de Es Devlin.
Ela não utiliza arquitetura apenas para criar ambientes visualmente impressionantes. Ela utiliza o espaço para produzir perguntas.
O labirinto modifica a percepção. A biblioteca questiona a autoria das ideias. O desenho coletivo dissolve a noção de obra individual. As referências a diferentes espécies ampliam o conceito de comunidade.
Assim, cada elemento cumpre uma função conceitual.
A beleza existe, mas não encerra a experiência.
A tecnologia também existe, porém não assume o protagonismo.
E a escala impressiona, mas não constitui o argumento principal.
O verdadeiro assunto permanece humano: a maneira como construímos nossa identidade diante de tudo aquilo que nos cerca.



