HAUTE COUTURE 2026/27
Após mais uma temporada de desfiles memoráveis, as tendências que dominaram Paris na Semana Haute-Couture 2026 reafirmam a Alta-Costura como o principal espaço de experimentação criativa da moda. Entre silhuetas esculturais, bordados de alta complexidade, novas interpretações da transparência, materiais inovadores e um refinado trabalho artesanal, as maisons apresentaram coleções que equilibram tradição e inovação, antecipando movimentos que devem influenciar o universo do luxo nas próximas temporadas.


SILHUETAS
Inicialmente, a Alta Costura reafirmou a importância da construção da silhueta como principal elemento narrativo das coleções. Em vez de seguir uma única direção estética, as maisons exploram diferentes proporções, alternando entre linhas fluidas, cinturas marcadas e volumes cuidadosamente estruturados. O corpo tornou-se o ponto de partida para interpretações distintas do luxo contemporâneo.
Além disso, a temporada evidenciou uma busca pelo equilíbrio entre leveza e estrutura. Enquanto algumas criações privilegiaram caimentos delicados, outras recorreram a formas mais esculturais, revelando a liberdade criativa característica da Haute Couture. O resultado foi uma diversidade de silhuetas capazes de valorizar tanto a técnica quanto a expressão artística.


APLICAÇÕES E BORDADOS
Aplicações e bordados permaneceram entre os maiores protagonistas da temporada. Flores tridimensionais, pedrarias, plumas, cristais e elementos confeccionados manualmente evidenciaram o trabalho minucioso desenvolvido nos ateliês. Cada detalhe reforçou o valor do savoir-faire e da excelência artesanal.
Além disso, os bordados deixaram de exercer apenas uma função decorativa. Em muitas coleções, passaram a construir textura, profundidade e movimento sobre os tecidos. O acabamento manual tornou-se parte essencial da identidade visual das peças, elevando o artesanato ao status de verdadeira expressão artística.


CORES
A cartela de cores transitou entre delicadeza e intensidade. Tons neutros, como branco, marfim, bege e preto, dividiram espaço com nuances vibrantes de vermelho, azul, roxo, verde e amarelo, criando contrastes sofisticados ao longo das apresentações.
Ao mesmo tempo, tonalidades suaves, especialmente os tons pasteis, reforçam a atmosfera etérea presente em diversas coleções. Mais do que seguir tendências cromáticas, as cores foram utilizadas para intensificar emoções, destacar volumes e valorizar a riqueza dos materiais.


TRANSPARÊNCIA EM FORMAS DIFERENTES
A transparência surgiu sob uma perspectiva mais refinada e técnica. Tule, organza, renda e tecidos extremamente leves criaram efeitos de profundidade sem comprometer a elegância característica da Alta-Costura. O recurso apareceu de maneira estratégica, sempre associado à construção da peça.
Por outro lado, muitas maisons exploram sobreposições inteligentes e recortes cuidadosamente posicionados. Assim, a transparência deixou de representar apenas sensualidade e passou a comunicar leveza, sofisticação e domínio absoluto das técnicas de modelagem.


O USO DO LATEX
O uso de um material que não é nobre chama atenção quando usado na alta-costura, na Schiaparelli, o látex foi protagonista substituindo tecidos nobres e questionando se a beleza está nos materiais nobres tradicionais, ou na imaginação capa de reinventar sintéticos “baratos”, látex e silicone viram os novos tecidos preciosos da couture. Contudo, o look mais citado da coleção é o corset em látex gloss na cor azul turquesa, usado por Karlie Kloss.
Na Dior, o Jonathan Anderson faz uma referência conceitual e não em material físico em si, a coleção inteira é uma homenagem para Lynda Benglis, artista justamente por seus “pours”, despejando látex e borracha líquida colorida no chão, criando esculturas organizadas. Então, Anderson traduziu essas qualidades pro vocabulário têxtil da couture sem usar o latex, as formas fluidas e derramadas da Lynda viraram plisses, tecidos amassados/manipulados.


ALFAIATARIA
Naturalmente, a alfaiataria permaneceu como um dos pilares da elegância contemporânea. Ou seja, blazers impecavelmente construídos, casacos estruturados e calças de corte preciso reforçaram a valorização da técnica e da qualidade dos acabamentos.
Ao mesmo tempo, as coleções apresentaram interpretações mais suaves desse universo. Linhas menos rígidas, tecidos fluidos e proporções renovadas demonstram que a alfaiataria continua evoluindo sem perder sua essência sofisticada e atemporal.


A NATUREZA COMO PROTAGONISTA
A natureza voltou a ocupar posição central nas narrativas criativas da temporada. Por exemplo: flores, folhas, elementos botânicos e referências orgânicas aparecem reinterpretados por meio de bordados, aplicações e construções tridimensionais de extrema delicadeza.
Além disso, essa inspiração ultrapassou o aspecto visual. Nesse sentido, muitas coleções utilizaram formas orgânicas, movimentos fluidos e texturas naturais para transmitir uma sensação de leveza e renovação, aproximando a Alta-Costura da arte e da própria natureza.


VOLUMES ARQUITETÔNICOS
A temporada trouxe um retorno a ideia de roupa como estrutura, o corpo virando suporte para formas arquitetônicas, não para o caimento natural do tecido. Na balenciaga, a estreia de Piccioli resgatou a herança de Cristobal Balenciaga original, barras balão exageradas e jaquetas de costas arredondadas, formas que existem por si só, quase independente do corpo.
No Jean Paul Gaultier esses volumes também apareceram em sua coleção, estruturas tubulares que pareciam crescer do corpo, cortes que se projetavam para a lateral e frontalmente, criando silhuetas gráficas e topiárias, referências aos figurinos de dança do próprio Gaultier nos anos 80.


BRILHO SOFISTICADO
Por fim, o brilho apareceu como uma manifestação da excelência artesanal. Cristais, lantejoulas, paetês e superfícies metalizadas iluminaram as passarelas sem recorrer ao excesso. O foco esteve na precisão das aplicações e na riqueza dos acabamentos.
Ainda assim, o efeito luminoso tornou-se parte da construção estética das coleções. Em vez de protagonizar sozinho a composição, o brilho dialogou com tecidos nobres, bordados e volumes, reforçando uma visão de luxo discreto, refinado e absolutamente contemporâneo.



